É um domingo frio depois de um sábado também frio, chuviscoso e ocupado. Antes que eu pudesse ter uma ideia qualquer de que horas fossem, minha cabeça me fez acordar. Ou acorda ou fica lá, deitada, maçarocando esses pensamentos até a agonia não permitir mais a imobilidade do corpo. Levantei e vi a hora, 4h30. Caralho. Escovei os dentes, dei comida pros gatos, lavei a louça, fiz café pensando em como desbaratinar as ideias. Sonhei que ela me contou que todo dia antes de voltar pra casa, parava na rua pra fumar maconha. Me contava que queria experimentar mais drogas e que usou não sei o que não sei quando. Aí meu dá um nó na garganta. É coisa antiga isso de não me dar bem com drogas, mas a coisa é que não é que não gostava delas. Queria usar todas quando era adolescente. O problema é que não tinha acesso à elas, ou com quem usar, ou como pegar e enfim, ficava meio recalcada, acho, quando via outros usando. Mas daí isso mudou quando saí de casa e dava pra fumar todo dia. Comprar o estoque do mês. Usar bala, o que quer que seja. Mas daí fodeu minha cabeça. Não que ela já não estivesse completamente do avesso, mas ficou pior. Entrei nuns lugar muito escuro e acho que não saí deles até hoje, só dou uma redecorada vez ou outra pra parecer que to chegando em algum lugar. Acho que hoje esse sonho me incomodou por dois motivos. A parada de droga é meio complicada porque eu não consigo mais usar nada. Eu sei que é a melhor escolha, eu consciente escolhendo isso tô ligada que não vou afundar mais um teco no espiral. Mas daí me sinto excluída. Ainda mais agora que parei de fumar e que beber não é lá a melhor coisa pro estado atual do meu corpo. E aí entra a pior parte do sonho e da vida real também que se encontram. No terreiro me disseram outro dia que um casal tem que andar junto, nenhum pra frente nenhum pra trás. Mas é essa a sensação que eu tenho tido todos os dias, de que eu tô ficando pra trás. E tentando consertar isso, tenho tentado agir desesperadamente como se ela fosse me deixar a qualquer instante. Mas ao mesmo tempo é como se estivessemos em lugares completamente diferentes. É como se algo que existia tivesse parado de existir e isso tem me deixado me sentindo muito solitária. É como se um acalento real tivesse evaporado e só restou as tentativas de tentar ser divertido ou engraçado. Parece que as energias estão tão opostas que se largassem a gente na floresta ela iria pro norte e eu pro sul porque as bússolas tão totalmente desreguladas. E isso me assusta. Porque eu dependo dessa relação, o que não deveria ser. Mas é. E me machuca a ideia de que eu possa estar ficando pra trás, apesar de ser exatamente isso que eu queria fazer quando tudo dói demais. Me deixo ficar. Mas aí penso que isso machuca desse jeito, tanto assim, só porque é uma dor dentro dessa relação. Acho. São monstros que aparecem quando em perspectiva, dentro desse lugar, que hoje é aqui mas poderia ser em qualquer relação que se desenvolva, provável. Certeiro.
Eu não quero ter que ultrapassar meus limites só pra mostrar que eu sou uma pessoa que se vale a pena não abandonar. Espero que com o início desse ano eu consiga me lembrar mais de fazer coisas que eu gosto. E dar um passo de cada vez porque um passo é pra frente não importa a que velocidade.
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